quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

"O texto está bem escrevido. Escrevido ou escrito?"

Texto sobre a crónica de Paulo Pinto "Crónicas para Brutos", que por sua vez fala sobre a crónica de Henrique Raposo "O bullying de Sócrates sobre Seguro".

Crónicas para Brutos, por Paulo Pinto
Não é nada que não se esperasse. Mas não deixa de me causar impressão a forma como as crónicas, nos poucos e cada vez mais monocórdicos títulos da nossa imprensa escrita, venham gradual mas seguramente baixando a fasquia da exigência do discurso, da elevação da linguagem e da clareza da análise. Nos tempos em que a disciplina de "iniciação ao jornalismo" fazia parte dos planos curriculares dos 10º e 11º anos de escolaridade, foi-me ensinado que a "crónica" era algo de especial. Não era um "editorial", nem uma "notícia", muito menos uma "reportagem". Era uma espécie de reflexão ponderada, um ensaio compacto de escrita cuidada, uma pequena jóia que só alguns conseguiam alcançar. Um "cronista" dos nossos dias (que nós ainda misturávamos com os cronistas medievais) era alguém capaz de produzir opinião, mas também literatura. E alguns exemplos eram lidos e mostrados nas aulas. Qualquer um podia fazer entrevistas e escrever notícias. Mas crónicas não.
Quase três décadas passadas, é com um misto de sorriso sarcástico e de sabor amargo que verifico que uma boa parte das "crónicas" que a nossa imprensa produz, diária ou semanalmente, não passa de um caldo de banalidades, mau português, egos inflados, agenda política e fel, muito fel. A reflexão avisada deu lugar à bojarda, a opinião lúcida cedeu terreno ao ataque pessoal, a crítica fundamentada recuou perante a insinuação, sugerida com duvidosa intencionalidade, quando não a simples intriga a roçar a calúnia. Nem falo da qualidade do português; basta-me a ausência de ironia, de delicadeza, de recorte literário. A linguagem tem a estética de um calhau de calçada, a limpidez de um naco de carvão, o sabor de uma malga de caldo insípido. É literariamente inerte e estilisticamente desinteressante. Crónicas para brutos.
Vem isto a propósito da mais recente "crónica" de Henrique Raposo no Expresso. Um jornal dito de "referência", o semanário de maior tiragem nacional. Ou um blog caceteiro? Fiquei com dúvidas. No texto, o autor não é capaz de alinhavar duas ideias coerentes. E originais, já agora, se não fosse pedir muito. Podia elaborar uma reflexão sobre o sentido de voto do PS no Orçamento de Estado; uma análise política; ou económica; ou ambas. Podia debruçar-se sobre o interior do partido, as suas fraturas e desafios; podia tentar um ensaio sobre as orfandades políticas em Portugal; ou, até, um exercício irónico sobre bonecreiros, marionetas, fiozinhos de nylon ou controles remotos, uma vez que o tema escolhido gira em torno das alegadas pressões e influências de José Sócrates junto do PS. Em vez disso, Henrique Raposo assume-se como alambique de ressentimentos e de maldizer, destilando fel insosso sobre a "gentinha socrática", "esta fauna" e os "leãozinhos [sic] de Sócrates". "Gentinha"; nem é capaz de dizer nomes. Um raciocínio pobre e falacioso, uma exposição rasteira e rancorosa, um texto bruto e grunho. Não faltará muito, adivinho, para se descer mais um degrauzinho na degradação cronística e passar-se à obscenidade. "Os cabrões dos apoiantes do filho da puta do Sócrates". Lá chegaremos.
Já agora, um acrescento: uma vez que o "gentinha socrática" já ganhou espaço na nossa imprensa, como se poderá começar a apelidar os apoiantes indefetíveis do atual primeiro-ministro, como Raposo e outros? "a ralé leporídea"? "a canalha cunícola"? ou simplesmente "as caganitas de Coelho"?


Paulo Pinto, no texto que escreve—"Crónicas para Brutos"— critíca as palavras que se dignam a ultrajar e que desprezam o glamoroso significado de uma crónica. De onde surge a necessidade de criticar o uso de um texto a que um tal de cronista nomeia como sendo produto do nome de que se orgulha que se lhe chame? Paulo Pinto mostra-se indignado, atiçado e sofrido com este reles hábito de sobrevalorizar um texto que não passa de um "caldo de banalidades", mal escrito, pobre a nível intelectual e pouco inteligente.

Henrique Raposo é a peúga perdida no meio de tantas outras sujas que vagueiam entre significados e conceitos que existem, mas que hoje por eles e muitos outros são desconhecidos. Será que ainda alguém conhece um bom significado de crónica? Será que hoje ainda é possível que se escreva uma crónica? Paulo chama-lhe "espécie de reflexão ponderada, um ensaio compacto de escrita cuidada, uma pequena jóia que só alguns conseguiam alcançar". É nesta opinião que se apoia para fundamentar o artigo que escreve. Ou será uma crónica?

Paulo acusa Henrique que acusa o PS socrático. Acusa o que acusa porque acusa. Mas fazem-no de maneira bem diferente. Na humilde opinião a que temos direito, enquanto meros estudantes universitários, entendemos que na "crónica" do conhecido cronista do jornal Expresso Henrique Raposo —"bullying de sócrates sobre seguro"— revela-se pouco inteligente e faz uso de um vocabulário triste e uso de um tom desnecessário à revelação de factos. Mas uma crónica não é uma reportagem nem uma "agenda política". Não interessa ao leitor que lê uma crónica, saber de dados concretos, de valores, de "3,4 mil milhões". Não interessa ler ironia forçada e que só não roça ultrapassa o maldizer e o difamar de uma classe política, quando diz "sim, o nosso querido líder deixou um buraco descomunal". E tudo simplesmente apoiado numa vontade frenética de rebaixar o grupo político a que se refere. Porquê? Provavelmente nem o próprio sabe o que o levou a escrever esta nota na toalha de papel do restaurante do café central dos brutos que comentam o futebol e fazem alusão às meninas da noite ou madrugada do dia que vivem.

No grupo concordamos com Paulo Pinto; que uma crónica deve ser detentora de uma escrita cuidada e exemplar, com uma excelente utilização de recursos estilísticos e bom português. Mas o texto de Henrique "grita. Grita muito". Já os dados que são revelados não devem sobrepor-se à opinião do autor, mas sim apoiá-la como ferramenta de argumentação. Já para não falar dos "(apartes)" teatrais que faz quanto ao uso dos parêntesis. Piada fácil, humor fraco e simples. Henrique Raposo constrói o seu texto com insinuações e ideias pouco concretas. Limita-se a apontar o dedo ao que considera estar errado e sente ser a verdade. Mas não o faz nem com classe nem com ironia. É bruto. E é cronista.

Seria mais interessante não sentir o desprezar arruaceiro de Henrique pelo partido que critica e muito menos sentir falta de sensibilidade que faz dele Homem ou rapaz que escreve coisas "escrevidas".

Quanto ao texto do Paulo Pinto, há concordância dentro do grupo. Um texto bem estruturado e que não cansa. Se uma crónica é, e volto a repetir, "espécie de reflexão ponderada, um ensaio compacto de escrita cuidada, uma pequena jóia que só alguns conseguiam alcançar", ficamos com vontade de chamar à opinião escrita de Paulo Pinto crónica. Mas ficamos tristes com o fim da reflexão que fez, pois sentimos que desce um pouco ao nível do Henrique Raposo, quando usa vocabulário chocante como "Os cabrões dos apoiantes do filho da puta do Sócrates". Sentimos que é desnecessário o parágrafo que se segue, pois está simplesmente a carregar na ferida mais e mais fundo. Ao mesmo tempo que sentimos que está validada a linguagem que aqui usa, dada a coerência e eficácia que consegue na exposição, não dos factos, mas das ideias que lhe correm seguras, protegidas e "patriotas", e que são seguramente entendidas como ironia feita ao texto que analisa de Henrique Raposo.

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