Na passada quinta a Casa Fernando Pessoa organizou uma sessão dedicada ao tema “Os Clássicos devem ou não ser estudados na Escola?”. Para discutir o assunto estavam na mesa Vasco Graça Moura, Maria Filomena Mónica, Clara Ferreira Alves — além do moderador Carlos Vaz Marques, o escritor Gonçalo M. Tavares (que não é meu primo) e o editor Guilherme Valente, que também participou vivamente no debate. Todos os oradores, sem excepção, defenderam o dever de se estudar os Clássicos na escola. Diferenças apenas houve de método, ou de definição do conceito de clássico, ou da necessidade de um “cânone” de autores: Vasco Graça Moura abriu uma excepção para o inquilino da casa, Fernando Pessoa, ao passo que Filomena Mónica recusou terminantemente que se ensinassem autores do século XX.
Na sala cheia toda a gente estava a favor dos clássicos; gerou-se o consenso de que o melhor método para ensinar os clássicos era o que cada um defendia, e que o dos outros era provavelmente desastroso.
E ainda estou para compreender como é que um debate tão uniforme gera paixões tão diversas: a dada altura Filomena Mónica sugeriu sotto voce que talvez que a única solução fosse a de fuzilar os professores e começar tudo de novo, e os membros da associação de professores abandonaram a sala antes que a oradora tivesse a possibilidade de lhes fazer o que Ahmadinejad gostaria de fazer aos israelitas.
Eu juro que um dia gostaria de ver alguém, num destes debates, fulminar contra o ensino dos clássicos. É um anseio mórbido, um pouco equivalente ao de querer que o vilão destrua num golpe seco o galã, num filme americano, ou de torcer por Leôncio a cada episódio de A Escrava Isaura — esse clássico da telenovela brasileira —. Espero por esse momento de clímax satânico mas rapidamente me vergo à realidade. Também eu sou a favor de que se tratem bem as velhinhas. Também eu sou a favor de que se conduza com cuidado. E também eu, o fraco, o caixa-de-óculos, o rato de biblioteca, sou a favor de que se ensinem os clássicos. Acima de tudo, também eu gostaria que se atacassem os clássicos para me poder erguer e, tonitruante, me declarar o último e mais sincero defensor dos clássicos. Mas a última vez que alguém desprezou os clássicos neste país foi, desgraçadamente, um clássico (morreu em 1900, portanto entra por uma unha negra no cânone): Eça de Queirós, em A Cidade e as Serras (“Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a Ilíada”, como bem lembrou Graça Moura).
E, por isso, quando me levantei para falar só fui capaz de debitar a lista de clássicos que estudámos na minha Escola Secundária em finais da década de 80, numa escola pública que nunca entrou sequer na 200 melhores do ranking e em plena terra queimada dos “filhos de Rousseau”: o cancioneiro galaico-português, Fernão Lopes, Gil Vicente, a Tragédia Castro, a lírica e a épica camoniana, a parenética vieiriana e por aí adiante até Herculano, Garrett, Camilo, Eça e — ai de nós — Fernando Pessoa. Pelo menos estes, quem quis aprender aprendeu. Faltaram os clássicos de outras línguas ou até da nossa própria: se Machado de Assis fosse ensinado nas nossas escolas já os Pedro Santana Lopes não precisariam de escrever cartas de agradecimento ao já bem morto e enterrado escritor brasileiro.
De nada vale, contudo, escrever num jornal que sim se ensinam os clássicos na escola: os jornais, os colunistas de jornais, os leitores de jornais, os directores de jornais já sabem que não é verdade. Sentem que são os últimos dinossáurios. A élite portuguesa está plenamente convencida de que na escola se ensina a jogar playstation. Nenhuma informação em contrário penetrará nessa barreira ideológica, social, cognitiva. Pergunto se não será esse mesmo ciclo a definição de um estado falhado que pretendemos todos evitar: aquele que se recusa a identificar os sinais da sua progressão, a aprender com eles e a fazer por reforçá-los?
Ficamos assim condenados a começar do zero, a anunciar a descoberta da pólvora em cada artigo, a uma declaração permanente da morte da escola democrática. Ficamos assim condenados a um lugar-comum que vem da Antiguidade Clássica: carpir os clássicos. Mas atenção que as carpideiras são, regra geral, os piores inimigos do defunto. Enquanto se esforçam por mostrar que sofrem mais do que os outros pela sua morte, é como se o matassem pela segunda vez. Nenhum adolescente passou a gostar da tia-avó desta maneira. Os verdadeiros amigos estão no bar a contar as histórias do morto. Enquanto continuarem a fazê-lo, ele ainda não morreu de vez.
O texto "As carpideiras" de Rui Tavares faz uma crítica a um evento organizado na Casa Fernando Pessoa cujo tema era "Os Clássicos devem ou não ser estudados na Escola?".
Um pormenor que salta à primeira vista é o título— as carpideiras. Duas conclusões apontamos a priori. Porquê usar um termo que existe há já dois mil anos, que dá significado às mulheres que eram contratadas, e quem sabe se não são ainda hoje, para chorar a morte de defuntos anónimos desprezados pelo mundo ou só pela sociedade a fim de encenar e mascarar uma dor que não se sente. E porquê este conceito? Porque e o que chora o Rui?
Rui Tavares introduz o texto de uma forma assertiva e "guerrilheira" quando diz que se quer "declarar o último e mais sincero defensor dos clássicos". Mas é essa a conclusão que tira?
Depois de uma breve apresentação dos oradores que participaram na sessão de esclarecimento das dúvidas que restam ainda hoje ao Estado e nos custa horas de trabalho inútil, conclui que todos defendem o estudo dos autores Clássicos, mas todos divergem na forma de os leccionar. Ora, neste ponto a opinião do nosso grupo de trabalho diverge. Duas ideias são discutidas e tendem a não ceder sobre argumentos que se anulam mutuamente. Uns defendem só o estudo do clássico. Outros porém defendem também o estudo dos escritores contemporâneos. Quem defende os clássicos argumenta com o pouco tempo de aulas para a densidade de matéria com que nos confrontamos na disciplina de Língua Portuguesa e com o facto de se tratarem de autores que marcaram a história pela qualidade da sua escrita e como é sabido, se não conhecemos o que é bom e não partimos dessas bases, acabamos por fazer um percurso autónomo e ignorante. Ou seja, se quiséssemos conhece-los, teria de partir de nós, da nossa iniciativa, e como sabemos, cada vez mais as gerações enraízam-se aos sofás e pregam olhos nos cubos mágicos, que hoje não cubos, parecem mais placas de esferovite de 5mm. Quem defende o contemporâneo, acredita que a escrita dos dias que correm consegue chegar a uma massa maior, dada a sua fluidez e uso dos nossos calões, associados ao poder libertino da nova folha de papel, o computador, e que fomenta e incentiva, pela sua simplicidade e pelo suave uso de recursos estilísticos, a leitura. Conclui ainda este lado, que o estudo dos escritores contemporâneos serviriam assim como um incentivo à leitura, ou seja, não substituem os clássicos, mas procuram um chegar mais eficaz à educação e a sensibilização da leitura, que é cada vez mais rara e menos procurada por todos.
O autor do texto que analisamos tenta no quarto parágrafo desvalorizar os argumentos que ouve e fixa vindos de quem, à partida, sabe do que fala, entre escritores, professores, políticos, sociólogos e jornalistas. Faz ainda alusão a um escritor brasileiro— Machado de Assis —um escritor que morreu em 1908 e a quem o bem conhecido Pedro Santana Lopes escreveu cartas de agradecimento, por o desconhecer morto há décadas. Um comentário que não é necessário ao conteúdo e ao que se discutiu na Casa Fernando Pessoa ou neste texto, mas que serve para despertar a nossa atenção ao que Rui Tavares escreve, pois trata-se de um pormenor giro e de fácil compreensão.
Rui Tavares conclui a conclusão não concluída. Ficamos na mesma. E explica o título— "carpir os clássicos". Lembra ainda que as carpideiras são as piores inimigas do defunto, argumentando que enquanto se esforçam por mostrar que sofrem a morte de um alguém diferente do que nos é comum, matam-no uma segunda vez, pois "nenhum adolescente passou a gostar da tia-avó desta maneira".
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