
Após uma curta investigação sobre o designer americano em questão —Alvin Lustig— sabemos que sobrevive hoje nas bocas de cada um e perdurou na história, pelo famoso trabalho que desenvolveu no design de capas de livros . O autor trabalhava primordialmente sobre elementos geometrizados, utilizando para tal a colagem e a foto-montagem. Lustig viveu numa altura na qual o design Europeu já se regia de uma forma mais escorreita e geométrica como "ordenava" o famoso design Suíço, enquanto que na América, o design era mais livre, genuíno e espontâneo. Ironicamente, o trabalho de Lustig foi também influenciado pelo trabalho de Jan Tschichold— famoso tipógrafo europeu.
O livro de Kafka fala-nos de uma viagem de um rapaz de 16 anos que emigra em busca do sonho Americano, iludido com este novo mundo. Quando chega apercebe-se de um várias injustiças sociais, quando procura ajudar amigos e acaba por ser despedido das funções que tem e a que se submete. Observando a imagem da capa deste livro, que já não é a própria capa do livro e muito menos é o pensamento de Lustig, mas sim a nossa interpretação da projecção de uma imagem que resolve o pensamento do designer, sentimos, sem antes saber nada sobre o a obra e sobre o designer, que terá a ver com a América ou que se passa mesmo na América. Primeiro comentário que surge—"De certeza que é uma história que se passa na América". Um comentário tão óbvio mas que nos diz que alguma coisa está bem resolvida, por muito básica que seja. Ao mesmo tempo sentimos trabalho e preocupação na imagem que Lustrig criou para ilustrar a obra de Kafka. Sentimos um entendimento que a nós não nos compete, por não conhecermos a obra ao pormenor, pois sente-se estudo e, mais importante, atenção ao conteúdo do livro em si. A estrela, as listras; o branco, o vermelho e o azul escuro, são os responsáveis pela persuasão e entendimento que obtemos desta capa.
É um problema comum hoje em dia. É feio ir a uma livraria. É triste querer um livro e todos eles serem iguais. É pena que seja já um design lerda e preguiçoso. É pena que não se sinta o design. O que entendemos desta obra que visitamos e criticamos, é que há um entendimento completo sobre a intenção de Kafka; há uma atenção à obra e uma vontade de ser fiel que nos permite quase conhecê-la sem a ter lido antes. Sentir que foi esta obra — "Amerika" de Franz Kafka— a responsável pela imagem a que assistimos, é o bom exemplo, como outros tantos, daquilo a que já não se assiste. Poucos, ou nenhum, se preocupam com o design de um livro. O comum é frequentemente encontrarmos, bem como em capas de CD's, imagens provocadoras, umas que nos atraem, outras que nos excitam, outras que se limitam a ofender e a perturbar-nos visualmente, outras que se destinam a ser correctas e sóbrias, mas que poucas não falam sobre o conteúdo de cada livro. Não nos mostram o que queremos ler, nem nos deixam com vontade de ler e querer interpretar a ideia que o autor nos propõe descobrir. Actualmente deparamo-nos com capas desprovidas de intencionalidade, com o claro objectivo gráfico que não comunica, mas se impõe, ficando assim com dois objectos que falam línguas diferentes. Já parece o texto de Alica Twemlow "When did postres became such Wallflowers?", que nos fala de um concurso de design que houve em Chaumont, um texto que critica o facto de os designers pouco se preocuparem com a mensagem que o cartaz se compromete a passar. Não deveria a capa de um livro querer ter o mesmo objectivo de um cartaz? Não quer?!
Olhando para a imagem do livro "Amerika" deste soberbo escritor, cuja obra mais conhecida é o tão bem famoso livro "A Metamorfose", sentimos uma certa comparação à viagem, ao pensamento, à espontaneidade, ao alheamento psicológico relativo a esta América que prometia a resolução de sonhos que a sociedade de então ambicionava concretizar. uma ilustração simples que questionamos, pois parece que foi feita ao sabor da viagem que a obra proporciona e nos convida a realizar.
Fica o sentimento de pena e uma dor leve dada a pouca sensibilidade artística que sentimos no design actual. Os livros hoje parecem não ter capa. Por mais bonita, elegante e sedutora que seja, é raro encontrar esta coerência verbal e gráfica entre um livro e a sua capa. Existe, mas não é comum. Eu, eu e eu não nos vestimos de qualquer maneira; todos nos arranjamos. Não terá um livro o mesmo direito?